Lá como cá: os “imbroglioni”

por Henrique Moretti

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Embora seja considerada um país de primeiro mundo, a Itália apresenta algumas semelhanças com o Brasil que a ligam ao terceiro. Na última terça-feira, por exemplo, chamou a atenção uma matéria de capa do jornal La Repubblica sobre o abuso de preços sofrido pelos turistas em Roma - imediatamente me lembrei de um quadro do Pânico na TV que mostrou as “longas” corridas realizadas pelos taxistas que recebem estrangeiros no Rio de Janeiro.

Fingindo não serem italianos, dois repórteres da publicação tiveram de pagar em bares e restaurantes por água de torneira, normalmente servida de graça em outras capitais européias e nas praias brasileiras, para se refrescar em uma cidade na qual a temperatura chegava a 30 graus. Vale lembrar que, ao contrário do que pode parecer, essa água que pode também ser encontrada nas bicas de Roma e de outras cidades da Italia é de boa qualidade (apelidada de acqua del sindaco, ou do prefeito, seu consumo é até incentivado em campanhas publicitárias). Apesar disso, uma garçonete abordada garantiu aos jornalistas que não se tratava de algo potável, fazendo-os pagar € 1,50 por uma garrafinha de 330 mL, sendo que o preço gasto, segundo revelou à reportagem um turista espanhol, alcança os € 4,50 em um hotel da capital do país.

Em outros bares, por outro lado, a água de torneira foi efetivamente concedida, mas não sem antes serem pagos € 0,50 por cada copo, com um ápice de € 2,00 em um certo restaurante - de todos os estabelecimentos retratados pela Repubblica, apenas um não cobrou pela água que na Cidade Eterna parece estar valendo ouro. Em outro local ainda aconteceu o caso mais engraçado: para fazer valer o recebimento das moedas, um garçom serviu os “gringos” disfarçados em um copo com gelo e limao. Nada mais natural.

O problema seria menor se os problemas encontrados por quem não é italiano se resumissem à agua ou a Roma. O estrangeiro, portanto, pode se preparar para despender de forma injusta também em Florença. De um ingresso para visitar a Igreja de Santa Maria Novella a um sorvete comprado perto da Galeria dos Uffizi, um estrangeiro pode pagar até € 1,00 a mais do que o comum, e nem o fato de falar italiano é sinônimo de salvação diante dos vendedores imbroglioni (trapaceiros, se é que a tradução se faz necessária). Em suma, o tratamento dado aos turistas na maioria das vezes é muito pouco digno para uma atividade que corresponde a 12% do PIB italiano.

Ainda no campo da ética, ela aparece de forma distinta na relação entre passageiros e o transporte público da Itália, baseado, diferentemente daquele do Brasil, na confiança. Em linhas gerais, só paga passagem de ônibus quem quer, visto que os ficais, especialmente em Roma, são pouco assíduos. Na capital, aliás, não é raro ver pessoas evitando tirar do bolso € 1,00 para se locomover, sendo que tal ação por aqui significa fare il portoghese (algo como dar uma de português) - coitados, assim, dos lusitanos, que na Europa tem outra fama que nao é aquela de serem burros.

O sistema de pagamento de onibus é similar ao usado nos trens intermunicipais, nos quais os ficais, contudo, são mais presentes - e nos vaporetti (barcos de Veneza, onde literalmente ninguém confere se a tarifa mínima de € 6,40 foi adquirida). Como nasci na colônia e não na metrópole, garanto ter seguido a mentalidade, digamos, mais civilizada e correta possível.

(imagem Flickr: Randy OHC)

3 Responses

  1. Solari Says:

    Nada como uma matéria do correspondente internacional do Depressão.

  2. Thiago Faé Says:

    É… também tem “homem cordial” na Itália… rs

  3. Diego Says:

    É mestre, e digo mais: é sempre adradável ler sobre a terra de nossos avós!

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