Por Thiago Peres
Tem uma cafeteria na esquina do prédio onde moro. O problema é que ela não abre aos domingos. Eu sei fazer café, essa não é a questão. Ocorre que a letargia dominical pede um ambiente que seja, de certa forma, a extensão da minha sala de estar: poucos passos até o elevador, mais alguns até o estabelecimento e… voilà. Sabe aquela coisa “quero sair, mas nem tanto”? Eu poderia caminhar por alguns minutos até uma padaria que abre todos os dias, sem exceção, e que fica a cerca de dois quarteirões de casa. Mas a cafeteria da esquina é diferente. Carrega um pouco do ambiente de descontração que encontramos somente em nosso doce lar. Ela me permite um acesso quase instantâneo a meus livros, ou outra coisa qualquer para me distrair que esteja guardada nas prateleiras do meu quarto. Os funcionários são conhecidos, e sempre há espaço para um delicioso bate-papo sobre as novidades das redondezas. Sinto falta da cafeteria aos domingos.
Digo isso pois nos últimos dias estava fazendo uma reflexão sobre as “coisas que sinto falta”. Alguém aí pode dizer que penso pequeno, afinal, já que se trata de viajar na maionese, o céu seria o limite. Porém, meu autodesafio tinha uma regra única e muito clara: a simplicidade. E isso tem um motivo. Para quem não sabe, fiz uma cirurgia há pouco mais de um mês. Coisa pequena, eu tinha pedras na visícula. Porém, após entrar na faca, fui obrigado a cumprir um período de repouso em casa, que durou cerca de 15 dias (nos 15 seguintes tive que manter alguns cuidados especiais, como evitar carregar peso, por exemplo). Quando saí para uma caminhada pela primeira vez após a quarentena, admirei profundamente o movimento cotidiano das ruas – um sentimento parecido com o qual descrevi no post “Slepless in São Paulo”, que publiquei aqui no Depressão em 2008. Porém, mal completei o primeiro quarteirão, ouvi um sujeito, que vinha na direção contrária, fazer o seguinte comentário com seu interlocutor: “Que falta faz uma Kalunga…”. Daí bateu forte a melancolia.
A Kalunga é uma rede de lojas famosa. Para quem nunca ouviu falar, trata-se de um “centro de papelaria e informática, também com seções de higiene e limpeza, embalagens e cine, foto e som” – é assim que ela se apresenta na internet. Somente na cidade de São Paulo, existem 28 unidades da Kalunga. Mas voltando ao assunto, alguém poderia me perguntar: “Qual o problema de o sujeito querer uma loja dessas perto de casa ou do trabalho?”. E eu responderia: “Você não está entendendo, meu filho. Ele quase suspirou quando afirmou que a Kalunga fazia falta em sua vida. Foi como se tivesse dito ‘Que falta faz a Iolanda…’. Tinha ternura no negócio!”. Continuei caminhando e refletindo sobre algumas coisas aparentemente insignificantes que me trazem alegria, mas elas vêm sempre acompanhadas de outros valores, talvez maiores, que julgo fundamentais. No caso da cafeteria existem alguns deles, como vocês devem ter observado. Mas e a Kalunga? O que mais se pode buscar naquele lugar se não um pacote de folhas A4, uma caneta esferográfica, uma caixa de DVDs graváveis…? Sei lá. Talvez esse cara, de fato, é que saiba o que é felicidade.
(Imagem Flickr: Thobias Vemmenby)
2 Responses
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Thiago Faé Says:
Kalunga faz falta para pessoas consumistas, Thiagão. Ninguém consegue entrar lá sem sair com alguma coisinha, tamanha a variedade. É quase uma lavagem cerebral.
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Ari Says:
Prá pensar:
http://www.storyofstuff.com/international/


