Teatro: Sessenta Minutos para o Fim

por Solari
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Recentemente fui conferir a apresentação de “Sessenta Minutos para o Fim”, organizada pelo grupo Garagem 21 e em cartaz no Espaço Sátyros. A peça de direção de César Ribeiro e com Ulisses Sakurai, Paulo Campos e Priscilla Maia no elenco conta a história, ou a não-história, de dois atores que são forçados por um coelho gigante a apresentar uma peça para uma platéia que nunca aparece. E se isso parece uma doidera, é porque é uma mesmo.

“Sessenta Minutos para o Fim” tem forte inspiração nos textos de Samuel Becket, notavelmente Esperando Godot, e possui diversos temas em comum com o autor como decadência, relação ambígua entre opressor e oprimido e a inutilidade da vida. Sou amigo pessoal do diretor e de um dos atores, nada mais justo que o leitor saiba disso, mas acho que ela tem muito a oferecer para quem quer fugir da linguagem fácil do chamado “teatrão” ou que veja uma obra de arte que complica a cabeça o espectador ao invés de propor respostas prontas.

A atuação de Sakurai e Campos é bem construída, seguindo uma proposta não naturalista. Os movimentos são robóticos ou grandiloquentes e a maquiagem carregada enfatiza a decadência dos personagens e os dá um ar tragicômico. Com ênfase no cômico. O personagem de Sakurai é um velho ator cego que vive envolto em memórias de suas glórias passadas, enquanto oprime ao mesmo tempo que depende de seu auxiliar, interpretado por Campos.

A dramaturgia mistura referência bíblicas a temas sexuais e abusa de absurdos e non sequiturs, dando a impressão de que as personagens nem sempre falam para comunicar o que sentem, mas para esconder seus sentimentos reais. A trilha sonora é de tecno modernoso que eu confesso desconhecer, mas que cabe muito bem, particularmente em momentos de tensão. Não encontrei tanto a referência de linguagem de HQ à qual o panfleto da peça se refere, no entanto. A peça tem um clima cômico, mas ao mesmo tempo claustrofóbico. A sensação de que os personagens estão perdidos, sem nunca compreender as suas condições;

Mas a peça não é para todos. Assim como Beckett que a inspirou, a apresentação não apresenta respostas prontas, mas levanta perguntas. Como disse antes, é o tipo de peça para quem gosta de ponderar um enigma e não quem deseja respostas prontas ou uma interpretação que amarre tudo com um lacinho colorido.

“Sessenta Minutos para o Fim” está em cartaz aos sábados e domingos às 18h30 até o dia 26 de junho e faz parte da série Naftalinas na Garganta, com outras peças do grupo. Ingresso a 20 reais, 10 para estudantes.
Visualizar Depressão pós-cafeína em um mapa maior

2 Responses

  1. cesar Says:

    salve salve dictator. valeu pelo texto, mas que tipo de quadrinho você anda lendo? puxei o texto pro meu blog. abração

  2. Thiago Faé Says:

    Gosto de peças assim, que me fazem refletir. Entretenimento por entretenimento já temos muitos no mercado…

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