Uma pizza à italiana

Por Henrique Moretti

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Não é à toa que grande parte das pizzarias em São Paulo têm, a começar pelo nome, referências italianas. Terra dessa preparação culinária que consiste em um disco de massa fermentada de farinha de trigo, a Itália vende pizzas individuais na maioria de seus restaurantes – esqueça aquela tradicional divisão brasileira segundo a qual o pizzaiolo deve entregar a comida em um grande prato no centro da mesa.

Mas não é só pela maneira peculiar de comer (e pela grande fome) que os italianos são curiosos quando o assunto é pizza. Em um pequeno estabelecimento familiar na Sicilia onde o pai empregava a mulher e seus dois filhos, pude testemunhar com uma de minhas primas o encontro de duas características do país em questão: o sangue quente e a tradicional iguaria de Nápoles.

Nesse local, uma surpresa já pôde ser observada na recepção: ao ouvir o pedido de duas determinadas pizzas para viagem, o dono do negócio lamentou dizendo: “Não sei se será possível”. Por causa do espanto dos clientes, o padrone logo explicou que nenhum equipamento estava quebrado. “Aqui os empregados não têm vontade de trabalhar”, bradou, lançando um olhar de desaprovação aos filhos que, segundo ele, gastavam mais tempo que o necessário perto do forno a lenha.

Resolvido o problema à base também de gritos com a mulher, o pai de família requisitou algumas informações aparentemente estranhas para um brasileiro: queria saber nome, sobrenome, endereço e número do telefone residencial embora a encomenda não fosse para ser entregue por um motoqueiro e sim para ser retirada no próprio estabelecimento.

Evitamos encrenca e passamos os dados, porém dois outros clientes que vieram na sequência não repetiram o gesto. Questionando a necessidade dessa pequena burocracia, eles causaram ainda mais irritação no siciliano em questão, que se levantou da cadeira onde se sentava e cravou, expulsando aos berros a clientela: “Se não querem falar, vão comer em outro lugar! Há muitas pizzarias nesta região!”.

Típica de Nápoles, a pizza representa não só muito da culinária italiana como pode fazê-lo também para a cultura do país. Da próxima vez que pedir uma dessas iguarias em São Paulo, certificar-me-ei antes se o dono do estabelecimento não tem ascendência siciliana.

* Esta pequena história não poderia ser contada sem a colaboração de Antonella Casilli, responsável por traduzir os nervosos diálogos do siciliano para o italiano.

2 Responses

  1. Thiago Peres Says:

    Esses estabelecimentos onde “o cliente nunca tem a razão” são os melhores!

  2. Thiago Faé Says:

    Atendimento bom é outra coisa!

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